| Alguém anda passando a mão em mim. Parte I Sábado, dia sagrado e ensolarado numa pequena bela cidade no litoral de Israel. Nas ruas, peugeots 2002 circulam entre volkswages 99 e bicicletas 7 marchas. Perto do meio-dia, um restaurante árabe de avenida secundária abriga suculentas conversas sobre cachorros e alfaces, risadas tímidas-mas-nem-tanto. Uma pequena jovem vestindo um jeans, uma camiseta e uma blusa um tanto quanto surrada se aproxima dos vidros limpos-mas-nem-tanto do restaurante. Alguém percebe ela alí, parada. "Brilho estranho no olhar dessa palestina..." Um casal Israelence numa mesa. Três árabes em outra. E aquela.... aquela parece Libanesa, mas talvez só a mãe. Foda-se. Nenhum palestino. Nem atrás do balcão. Então foda-se. Então vou mandar ver. Filhos da puta já mataram meu pai e meu irmão. Pro caralho. Vou mandar ver. Foda-se. Só vou chegar mais perto. Filhos da puta... O dispositivo de disparo em sua mão leva quinze milésimos de segundos entre o contato e a explosão. Dezenove inocentes-mas-nem-tanto que estavam no restaurante morrem. A jovem suicida, óbvio, também. Corta. Sábado, O dia foi agitado. De manhã encontrei os manos, fui bater uma bola no Esportivo Zona Sul. No almoço: Rango no Rodriguinho, que lá tava rolando uma feijoada da Dona Cíntia que não dá pra perder. Levei breja. Paulão levou smirnoff e velho barreiro. Miltinho, tá sem grana, apresentou o limão na parada. Tá valendo. Depois, rolou um samba com o Dieguinho e foi tudo na boa. Fim de tarde, o sol na cuca, se enfiamo no carro e fomo. Vidro filmado, voyaginho rebaixado esquema. O rap queimando. Não deu outra. Chegamos no boteco, os caras lá. Se fudero, pegamos os caras depois do futebol, tudo só de camiseta. Arregacei. Só no meu Berro levei uns quatro. Também, um Berro 45. Trinta bala. E com a mira que eu tenho? Num sobra um, mano! Capão Redondo. No coração-pulsante da zona sul paulistana, manhã de domingo, o sol já brilha como dez da manhã, Noite tranquila de sábado, só morreram dezenove. Bem, tem aquele lá na UTI, um buraco de queijo emental esculpe seu recém-modificado aparelho digestivo. Esse morre antes do bom-dia-brasil de segunda. Parte II Israel ataca a Síria. Avião a 1200 km/h e míssil. Alega ser "acampamento para treinamento de terroristas". No local, um ex-acampamento palestino. Dois morrem. Siria não gostou muito da idéia não. O último desses foi em 73. Essa história ainda vai dar pano pra manga. Fernandinho Beira-Mar. Transfere ele de um lado para o outro. Julgamentos, delegecias, exército, polícia federal. "Agora ele está bem guardado!". O cara está puto. Não quer saber. Terça-feira, 10 da manhã, pega o celular e liga: "quero o centro do Rio fechado. Patrão mandou." Fechou. Até a 1 da tarde. Até o DETRAN. Parte III E aí? E o que mais acontece em Angola? Uganda? Burma? Cidade do México? Por que a tragédia só é mundial se acontece no Oriente Médio? Midia produtora x midia reativa: quais os assuntos em pauta? Por que a miséria não é um assunto de interesse mundial? Quantos mortos de cada lado? E os vivos?
12.10.2003
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