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Tinha sido naquela noite neonlight. A boate era estreante, tinha uns
seguranças novidades na porta mas a hostess era do Lov. E que
eu bem sabia.
Entraram e não!: foram os primeiros.
- Pelo
menos dá pra gente ver o lugar, não é mesmo?
Dois ambientes e um banheiro comunal compunham a cena. E eles a conversar
com o barman.
- Lota?
- Vixe, e como.
- Quanto é que você ganha aqui? - já tinha ela que
ir com a enquete, o tal do gene investigativo nela.
Sentaram nas poltronas sem encostos estilo anos 70 depois de marcarem
no boleto o blood Mary e o suco de limão. As costas formavam
um ângulo curvo de 90 graus. Doeu e decidiu cruzar as pernas,
melhor, colocar uma perna em cima outra em baixo em formato propaganda
de malboro. Embora não fumasse. Ele
vestia preto dos pés à cabeça inclusive os olhos.
Puxados e puxados pro verde: era um tripulante do Encouraçado
Potenkin. As pessoas iam chegando.
- Vamos dançar?
Ali tocava "Voyage, Voyage" e barbaridades do tipo (áureos
tempos de Monte Líbano):
- Ótima a música aqui, não?
Entre gays, lésbicas, simpatizantes e nem tão simpatizantes
assim, moviam-se freneticamente, de um lado para o outro. Dançaram
juntos. A
pista ia ficando pequena para tanta gente: foram se achegando. -
Fuuuu.
Fez o gelo seco para se perderem um pouco de si. A música rápida
começou a divagar por dentro, se aproximaram mais. Ondulavam
agora só o quadril - as cabeças estancas. Ela fechou os
olhos e soltou a garrafa crystal, pois aquelas mãos não
tinham forças para mais nada. E tocou "Enjoy the Silence",
do Depeche Mode. Ele,
milhas e milhas de qualquer sol, nunca saberia que ela se lembrara daquilo.
Numa noite tediosa sob ruivos de cachorros vira-latas, baixou o file
por engano. Clicou duas vezes:-
All I have wanted, all I have needed is here in my arms. Words are very
unnecessary: they can only do harm.
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