armário de água era cubicular, arquitetura centenária e

fumaça diáfana com trilha chill out. Alongando a encaixotada perna

esquerda, Sindri concebe o primeiro toque e uma pausa. Laura esboça um

traçado de retribuição, que pára no meio. Olha para

cima (dois vazamentos) e para o lado, pro boxe &; vê uma garrafa

jogada, quase vazia. Apressa-se, tomando-a pelo colarinho e rodando-a no chão

&; o bico aponta Sindri, que começava a preparar, com engenhosidade

erudita, o tchá tchá tchá no topo do vaso.

&; Bom, com a minha namorada, no começo, era um esquema puramente

físico. Pra te dizeres a verdade, não imagino como relacionamentos

podem se tornar entidades funcionais.

&; Como vamos saber se o que temos é o melhor que poderíamos

ter?

&; Não vamos &; respondeu ele (ou a Zaratrusta nele) &;;

é esse o charme.

&; Hum. Um tanto romântico para um céptico.

&; Aproveite, que esta noite eu me sinto, subitamente..., menos escandinavo.

Sindri toma-lhe a garrafa e bebe em gesto-brinde um gole do elixir, como se

celebrasse. As mãos se deslizam parcamente; o indicador de Laura passeia

saltitante pelo braço de Sindri, que arremata:

&; Porém, acima de tudo, eu provavelmente nunca mais vou te ver.

Laura também experimenta:

&; A gente aqui dura o tempo desse grama.

Quando Hun adentra de súbito &; e deixa a música vir alta

pelo vão que ali se faz &;, encontrando Laura e Sindri na ânsia

da jurisprudência do quarto toque. Hun balbucia rocas palavras, precisa

do banheiro, eles saem, fechando a porta atrás do caminho a lugar algum,

da onde se ouviu um zunido baixo de leve indisposição e o casal

na cama inconsciente. Tinha passado tanto tempo assim?, não importava,

não importava pois os olhos grandes de Sindri espiavam Laura e este era

o quarto toque. A luz vinha refletida da bola de espelho, do celofane na penteadeira,

da lente que circundava, sim, agora só restavam ela e ele. Talvez devesse

dançar, mover levemente o quadril para descontrair. Manteve-se imóvel.

Percebeu uma recém palpitação que lhe tomou as pernas:

era então o fim do começo da história, um momento sem ruídos

e decidiu prestar atenção. Forçou os olhos bem abertos,

era um não-tempo, só agora ia poder viver presente, ela, com entranhas

a cicatrizar, ela, cujas veias dilaceradas e artérias entupidas precisavam

de uma ponte de safena pra ontem, ela quis adiar. Delongar ao menos, criar ali

uma eternidadezinha que pudesse levar consigo, quem sabe, guardar no criado-mudo,

assim mesmo, como se Sindri a quisesse por inteiro, a alma inclusive, como se

não fizesse mal se não fosse, ele esperasse, como se ensinasse

e ela aprendesse.