|

|
Desmistificando
a mídia
Cada nova tecnologia dá às pessoas novas ferramentas para
trabalhar com múltiplas formas de contar uma história, propor
uma idéia, uma visão de mundo. Novas mídias vão
criando novos tipos de narrativas. Lineares, fragmentadas, históricas,
pessoais etc, a narrativa pode ser considerada uma sequência de
informações organizadas por uma idéia. No entanto,
esta é profundamente modificada de acordo com a técnica
e objetivo usado para contá-la.
História
ilustrada das tecnologias de mídia
http://www.cedmagic.com/history/index.html
Em um Opy
- a Casa de Reza dos Guarani - em que índios se reunem para todas
as atividades significativas da aldeia (como tratar dos problemas em comum,
cantar, se curar ou ouvir histórias [porahei]), mesmo que o conhecimento
passado adiante de forma oral não possa ser registrado "tecnologicamente",
ele existe vivo dentro da dinamicidade das relações cotidianas
de qualquer tribo. A sua técnica se chama oralidade, e produz narrativas
únicas que vão ser representadas pelos cantos e pelas danças,
além de seu conhecimento medicinal, ecológico, econômico,
religioso etc.
Já
na Europa, a invenção da prensa tipográfica por Guttenberg
no século XV, resultou, por exemplo, no florescer da introspecção
e subjetividade durante a época vitoriana inglesa, onde público
e privado aos poucos vao deixando de ser um só. Histórias
de mulheres vitorianas, antes sem voz, surgem em profusão para
descrever a época.
1878: Thomas Edison Demonstrates the Cylinder Phonograph
http://www.cedmagic.com/history/edison-cylinder-demo.html
Em sociedades mais avançadas tecnologicamente, quase todo conhecimento
ou expressão cultural é influenciado ou passa pela técnica
"vigente", determinada tanto por padrões econômicos,
como sociais e globais. A mídia como conhecemos hoje (jornal, telejornal
etc) surge como parte desse processo, para fornecer informações
sobre o mercado, reafirmar ideologias vigentes etc (assim como o relógio
foi inventado para a rotina dos hábitos religiosos e logo após,
para o comércio).
Inicialmente, no séc XVII - quando Rosseau confabulava com Paris
a Revolução Burguesa - a mídia tinha um formato ´ágora´,
muito parecido com a Opy indígena, em que todos se juntavam para
discutir e chegar a um senso comum - consenso - mas com o rápido
crescimento das cidades isso mudou para uma democracia representativa.
É claro que, com uma população crescente, a possibilidade
de se participar do ´fazer mídia´ diminuiu. A circulação
em massa de jornais e a procura por lucro e acordos comerciais que o justificassem
criou uma concentração de donos e patronos de mídia
impensado nos tempos de Rousseau. Esse formato hierárquico da mídia
ainda é o que predomina atualmente. O governo brasileiro então,
aliado que é historicamente das elites, somente reproduz a relação
de passividade do leitor de mídia, que, de cidadãos ativos
passam e ser consumidores passivos, sem nem pensar em regular esse monopólio
´natural´. Pelo contrário, com um orgão - Anatel
- que vem justamente regular ainda mais qualquer possibilidade de renovação
e democratização da telecomunicação. A ditadura
cultural (censura, caça, exclusão) continua...
Com o surgimento da TV nos anos 50 vem também a tecnologia que
se torna símbolo da nova sociedade. A produção em
massa de artefatos culturais reorganiza a vida social. Com ela, padrões
homogêneos e universais de sociedade e cultura puderam ser adotados,
em prol de uma solidificação econômica. A desigualdade
que vemos economicamente ao nosso redor não é a mesma, por
exemplo, no plano da cultura nacional de teor público (TV, cinema,
teatro) onde preza a homegeneidade. Como a maior parte das informações
que recebemos passa por um meio de comunicação (desde a
guerra do iraque ao tráfico do rio de janeiro - TV, rádio),
e os espaços públicos estão cada vez menores e mais
espremidos pela linguagem publicitária, é esta mediação
e padronização que constroe visualmente o social.
A telenovela,
por exemplo, fomenta a criação de clichês (de gênero,
raça, clase etc) para orientar suas produções culturais,
sem espaço para o novo ou o diferente. A intimidade e diversidade
existente em uma sociedade pré-TV em que a comunicação
é de muitos para muitos, é praticamente descartada com uma
mídia de massa. Experimentos como o Teatro do Oprimido (Augusto
Boal) vêm desde os anos 60 usando a arte como processo crítico
de conscientização. Nos anos 80 surge, principalmente na
Inglaterra e nos EUA, o que se chama de mídia comunitária,
que tem suas origens no punk e na cultura DIY (faça-você-mesmo)
em que pode-se re-entrar na mídia como ator e não somente
como espectador. Os novos movimentos sociais e as minorias (etnias, raças,
mulheres, jovens ou homossexuais) exigem hoje menos serem representados,
do que tornar socialmente visíveis as suas diferenças.
Hoje em dia apreendemos e aprendemos o mundo pela TV - não há
tempo nem dinheiro para conhecê-lo pessoalmente. Estudiosos da comunicação
como Neil Postman acreditam que a mídia tradicional tende a reorganizar
a sociedade por meio do espetáculo. Baudrillard usa o termo hiper-realidade
para falar de uma realidade em TV e cinema que domina e se sobrepõe
à realidade física, imaginada de acordo com inclinações
muitas vezes subliminares. Este limbo de imagens (de violência,
de mundos perfeitos e consumo) seria chamdo de simulacro: uma representação
sem realidade representada, onde as maiorias não se reconhecem
e o esquecimento exclui. Outros estudiosos usam o termo Carnaval para
a possível subversão simbólica temporalizada desses
padrões sociais e culturais vigentes.
O Digital
A vinda da era eletrônica, e mais tarde do digital, cria uma nova
possibilidade de atuar no mundo. McLuhan cunhou o termo ´Global
Village´ (Vila Global), para o retorno ao tribalismo e a diversidade
que havia desaparecido desde a era da tipografia e o fortalecimento do
estado, do comércio e da igreja.
Até
mesmo a palavra ´ágora´ é revisitada em diversos
estudos acadêmicos para representar o formato da mídia digital,
ou seja, uma mídia mais democrática e participativa, sem
óbvios monopólios de conteúdo e distribuição.
No entanto, apesar de muitos avanços nos meios de produção
e publicação digital - onde já estão sendo
removidas inclusive barreiras entre autores e leitores - ainda são
muito poucos os que têm acesso às novas mídias (13-17%
da população brasileira).
No entanto, o potencial mais crítico de atuação está
sobretudo na premissa de que qualquer um que tenha acesso à esses
meios pode dominar a técnica, e assim propor e atua suas próprias
idéias e ideais de mundo. É o nascimento de redes globais
de colaboração como o Centro de Mídia Independente
a Ação Global dos Povos.
A convergência de mídias, através da integração
das telecomunicações, mídia e informática
em volta de tecnologias em comum, promove também modelos que subvertem
não só a estética* como também aponta para
modelos amplos e transdiciplinares para novas inteirações
sócio-culturais.
Estudiosos (como os holandeses) afirmam que o surgimento por exemplo,
de novos produtos culturais, dinâmicos e diversificados, dentro
de uma nova dimensão social do espaço coletivo, criariam
produções simbólicas tão potentes, que, mais
do que paradigmas vêm representar uma nova metodologia peculiar
de ação transcultural, onde o confronto de conteúdos
diversos poderia alimentar uma inteiração relativizadora.
* com a aprofundamento
da prática modernista de colagem (copiar e colar), alterações
(defacements), scripts de comportamento funcional etc.
Discurso, Controle e Poder
A aglomeracação de forças: estado, capital, mídia
etc conspiram para criar uma distância entre as pessoas ordinárias
e os eventos políticos de seu tempo. Através de uma mídia
dominadora, padrões de controle e poder são estabelecidos,
oriundos no caso brasileiro, de uma longa história de opressão
e colonização.
A segregação
digital (ou digital divide), por exemplo, é um termo que se ouve
bastante no momento, mas que é raramente entendido como um processo
de prática já institucionalizada em nossa sociedade. Comumente
o termo se refere à divisão entre os povos e as comunidades
que podem fazer o uso eficaz da tecnologia de informação
e aquelas que não podem. Entretanto, a segregação
digital é mais do que em um fenômeno novo e isolado, e sim
apenas uma continuação de já existentes divisões
de raça, classe e sexo, que são por sua vez já são
firmemente institucionalizadas em várias nações,
desenvolvidas ou não. Essas
disparidades vêm tanto da história da escravidão e
da pobreza, quanto de outras formas de violência.
Como um Discurso é formado
De acordo
com Foucault, todos os tipos de 'pensamentos coletivos' podem ser traçados
a certos textos, referências, acontecimentos institucionalizados
etc. Um discurso específico, seja o de um político ou o
de uma telenovela ou mesmo o discurso do comercial de cerveja, estruturaria
as relações entre conceitos, assim sugerindo sistemas particulares
de interação sociais (beber cerveja te traz mulheres gostosas,
a violência cresce indiscriminadamente então socializo menos
etc). Por exemplo: gênero. O discurso tido como patriarcal, organiza
os termos que giram em torno da palavra 'menina' ('ela é somente
um mulher', 'popozuda' etc....). Hoje em dia é a TV, regulada por
legislações e modelos comerciais de produção
cultural industrial, que produz e alimenta a maioria dos discursos correntes.
Discursos podem ser entendidos como táticas de controle e poder
que atuam em diversos campos do pensamento humano, organizando os sistemas
vigentes dominantes.
Um discurso
se dá através da:
- Legitimização
- Universalização
- Racionalização
- Naturalização
- Reificação (coisificar)
- Unificação (unidade simbólica)
- Diferenciação (nós x eles)
- Dissimulação (escondendo fatos!!)
E agora?
A atual erradicação
nos meios de comunicação de massa de discursos/pensamentos
que valorizem a diversidade, a liberdade de expressão plena, a
autonomia e as causas minoritárias em geral, são alguns
exemplos da causa e da natureza do nosso atual estado de alienação
e subordinação cultural. Alienados de nós mesmos
e subordinados à esfera econômica e à política
partidária.
Em uma sociedade pós-fordista, com equipamentos cada vez mais baratos,
o software livre e o domínio da técnica vigente, a produção
da cultura, do conhecimento e da ação social estariam cada
vez mais facilitadas. Assim como experimentais e potentes, ao se cruzarem
com a política e a arte, chegando a serem confundidas, em alguns
casos, com verdadeiras armas de guerra (como os zapatistas e a causa indígena,
ou o hacktivismo).
Nesse sentido, a produção de estratégias de mídia,
o domínio do discurso e a valorização da causa local,
são também táticas, ao se aliarem ao global.
O
Real e o Simbólico
Como as estruturas de controle e poder se organizam:
1) (cultural,
social, psicológico)
TV: O simbólico, a superficialidade, a banalização,
criação de mitos e narrativas contemporâneas homogêneas,
a falta de subjetividade
Mídia global e Publicidade: Consumo, medo e anestesia
A Novela e o culto das celebridades (globotomia): Simulacro, espetáculo
e
2) (político,
econômico)
A cartografia das grandes organizações e as macro-estruturas
de poder
Homologação via legislação
O Panapticon e a cidade observada (cidades mais desenvolvidas da Europa
se rendem ao Big Brother)
voltar
|